Brasil bate recorde de fusões e aquisições em 2019
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Brasil bate recorde de fusões e aquisições em 2019

23/12/2019
Fonte: Valor Econômico (https://valor.globo.com/empresas/noticia/2019/12/23/brasil-bate-recorde-de-fusoes-e-aquisicoes-em-2019.ghtml)

Crescimento do Produto Interno (PIB) pelo terceiro ano consecutivo, melhora de indicadores econômicos, encaminhamento da agenda de reformas, aumento do nível de confiança dos empresários, percepção de diminuição do risco-país, juros e inflação nas mínimas históricas. Ainda que a economia brasileira esteja longe de entregar o crescimento esperado, estes fatores têm sido determinantes para que o Brasil consiga romper marcas históricas nas transações de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês) em 2019.

“Há correlação entre perspectiva de melhora econômica e aumento do número de transações de M&A”, resume o sócio-líder em fusões e aquisições da KMPG, Luis Motta. A boa notícia é que 2019 está longe de ser um ponto fora da curva nessa indústria. Na realidade, marca uma escalada na recuperação do número de transações que teve início há dois anos. Após a queda no total de operações entre 2014 e 2016 (de 818 para 740), no período da recessão, houve aumento acelerado em 2017 (830) e 2018 (967), conforme dados da consultoria.

De quebra, o biênio renovou os recordes anuais da série histórica publicada pela KPMG desde 1999. Em 2019, esse apetite continuou aquecido, levando mais investidores estratégicos (empresas que adquirem outras empresas) e investidores financeiros (fundos de private equity, fundos soberanos, fundos de pensão e bancos de investimento) às mesas de negociações. A lógica é simples: a perspectiva de melhora na economia fomenta investimentos de longo prazo, que são a própria essência das operações de fusão, aquisição, compra de participação ou incorporação. “O investidor de M&A vislumbra o longo prazo. Ao comprar uma empresa hoje, ele enxerga um cenário positivo nos próximos cinco ou dez anos”, diz Leonardo Dell’Oso, sócio da PwC Brasil.

Nos primeiros seis meses do ano, conforme levantamento da KPMG, foram fechados 543 negócios de fusões e aquisições, um crescimento de 17% em relação aos 461 acordos em igual período de 2018. Pela própria natureza desse tipo de operação – entre o namoro, a diligência, valoração e o fechamento dos negócios, uma negociação pode durar de seis meses a dois anos –, os números de operações de M&A disponíveis até o momento refletem negociações que estavam em andamento no fim do ano passado ou início deste ano.

Como houve melhora nos indicadores econômicos em 2019 e foram aprovadas reformas consideradas essenciais pelos investidores para o ajuste das contas públicas, o interesse por fusões e aquisições foi ganhando tração com o passar dos meses. No terceiro trimestre deste ano, foram registradas 336 transações, o que eleva para 879 o acumulado do ano. “Os últimos meses têm sido bastante fortes e há a chance de o número de transações ser superior a mil neste ano, um recorde para um único exercício”, diz Motta, da KPMG.

Os dados sobre as transações de M&A variam de acordo com a consultoria. Mas todos os estudos apontam para um crescimento acelerado nas transações e indicam algumas tendências em comum. Uma das marcas desse período de retomada e que também foi a tônica de 2019 é que o crescimento das transações foi liderado por empresas brasileiras fechando negócios com pares locais. Levantamento da PwC Brasil mostra que, no acumulado de janeiro a outubro, as transações envolvendo investidores nacionais corresponderam a 67% das aquisições e compras minoritárias, outro recorde histórico.

A explicação, novamente, recai na conjuntura econômica. Em períodos de crise, explicam os especialistas, os empresários brasileiros são os primeiros a pisar no freio nesse tipo de transação – com menor geração de caixa, a prioridade é o corte de custos e despesas e a renegociação de dívidas. Em períodos de retomada da economia, os locais também são mais ágeis que os estrangeiros para identificar oportunidades de consolidação em seus segmentos, compra de participação de mercado, de ampliação de portfólios de produtos ou de entrada em novos mercados.

Nas transações que envolvem capital estrangeiro alocando em negócios estabelecidos no Brasil, a tendência também é de alta, embora ainda em quantidade e velocidade inferiores às dos negócios feitos entre empresas locais. Isso é comprovado pelos números da PwC Brasil, que mostram um total de 221 negócios envolvendo estrangeiros no acumulado dos dez primeiros meses de 2019, um crescimento de 18% em relação a igual período do ano passado.

As estatísticas comprovam que o interesse dos estrangeiros por negócios locais tem crescido gradualmente e destoa do movimento de forte saída de capital especulativo dos investidores externos do país em 2019, motivado por fatores como o aumento de aversão a riscos em países emergentes e, no caso específico do Brasil, o novo patamar de juros, que diminuiu a rentabilidade dos investimentos. A lógica do investidor externo no mercado de M&A, entretanto, é diferente, explica o sócio de transações corporativas e estratégia da EY na América do Sul, Felipe Miglioli. “O investimento mais especulativo é diferente do dinheiro do M&A, que é voltado para estratégias de longo prazo”, diz.

Em 2019, destaca Miglioli, é perceptível o aumento de interesse de estrangeiros ainda sem presença no Brasil e que voltam a atenção para ativos locais com a melhora dos fundamentos macroeconômicos, em diversos segmentos, com destaque para fintechs e plataformas de serviços financeiros, startups com soluções disruptivas no segmento B2B, varejo e consumo e infraestrutura. Há também um crescente interesse de fundos de private equity e de venture capital por ativos locais.

O japonês Softbank anunciou em março um fundo de US$ 5 bilhões para investimentos em startups na América Latina. Segundo dados da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP), em 2018 foram registrados aportes de venture capital em 122 startups brasileiras, totalizando R$ 6 bilhões. Nos três anos anteriores, a cifra nunca havia superado R$ 1 bilhão. Os negócios envolvendo empresas de internet, categoria que abarca a maioria dessas startups, são justamente os mais aquecidos na indústria de fusões e aquisições em 2019.

Conforme o levantamento da KPMG, foram 116 transações do tipo no primeiro semestre – desde 2017 essa categoria lidera um ranking que historicamente é dominado por negócios na área de tecnologia da informação (TI). Além de atrair investidores globais de olho no florescente mercado de fintechs e startups de tecnologia nacional, o aquecimento é explicado pelo ganho de musculatura de muitas dessas novatas, fundadas no início da década e que, desde o início de 2018, ingressaram no time dos unicórnios – nome dado às startups com valor de mercado acima de US$ 1 bilhão.

O primeiro unicórnio brasileiro foi o app de transporte 99. Posteriormente, oito startups ingressaram na lista: Nubank, Arco Educação, Movile, Stone, Gympass, Loggi, QuintoAndar, Ebanx e Wildlife Studios. Altamente capitalizadas com aportes de fundos nacionais e estrangeiros, essas startups saíram às compras em um movimento de consolidação de seus segmentos de atuação. “Há também um forte movimento de empresas tradicionais que precisam acelerar seus processos de digitalização e inovação tecnológica e que compram startups de analytics, indústria 4.0 ou Iternet das Coisas (IoT, na sigla em inglês)”, diz Dell’Oso, da PwC Brasil.

A previsão de crescimento superior a 2% da economia em 2020 soa como música para os ouvidos dos participantes da indústria de M&A, que deve continuar renovando recordes, avalia o sócio-líder da estrutura de Corporate Finance Advisory da Deloitte, Reinaldo Grasson. Um dos fatores que jogarão a favor do fechamento de novas transações, na visão do especialista, é o aumento no número de IPOs (oferta pública inicial de ações, na sigla em inglês). Historicamente, processos de abertura de capital na bolsa geram eventos de liquidez que possibilitam às companhias a aquisição de concorrentes e a consolidação em seus segmentos. “No passado recente, muitos IPOs em setores como educação e saúde motivaram uma série de aquisições na sequência. Os processos de consolidação continuarão fortes em segmentos como TI, saúde, educação, varejo e consumo”, diz Grasson.

A política de desestatização do governo federal – além de iniciativas de diversos governos estaduais e municipais – também tende a impactar positivamente o volume e o tamanho das transações de fusões e aquisições em 2020. Desde a eleição do novo governo, a PwC Brasil reforçou o time da área de Capital Projects & Infraestrutucture (CPI) para atender a essa demanda crescente dos entes públicos. Os números de 2018 ainda foram tímidos: as concessões e privatizações representaram 34 negócios de M&A ao longo dos dez primeiros meses de 2019, um crescimento de apenas 3% em relação a igual período de 2018.

Em operações de M&A, o método de valoração de um negócio (o que o mercado chama de valuation) tradicionalmente consiste no fluxo de caixa descontado – em suma, é feita a projeção futura de geração operacional de caixa trazida para valor presente. Com o aquecimento da economia, os preços dos ativos já começam a ficar mais altos no Brasil, na visão de Miglioli, da EY, o que torna as “teses de investimento” mais caras e complexas. “O mercado continua aquecido, mas ele não é mais tão óbvio como era há dois anos, no momento da retomada. Isso porque a melhora nos fundamentos da economia aumentou o valuation de empresas de muitos segmentos. Há mais competição pelos ativos e isso aumenta o poder de barganha do vendedor”, diz.

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